* “Mas afinal, para que serve a comunidade?” - Blog - Comunidade Tenda

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* “Mas afinal, para que serve a comunidade?”

Comunidade Tenda
Publicado por em Comunidade ·
É possível que possamos pensar numa Comunidade de uma maneira puramente prática, ou seja, ela é apenas o apoio necessário para que eu possa viver uma vida que me conduza a Deus. Pensando assim, a Comunidade é o espaço que me oferece condições para esta caminhada. Nele, me são oferecidos alguns momentos como o ensino da oração diária, da participação na Igreja (nas Missas e em alguma realidade paroquial), na adoração Eucarística, nas missões em acampamentos e as catequeses. Essa atmosfera me propicia momentos de aproximação a Deus. É oferecida uma atmosfera de acolhimento e cuidado, amparada ainda pelo casal-guardião, que é aquele que serve como guia e orientador nesta proposta de caminhada cristã. Os Guardiões não são apenas professores, mas essencialmente fonte de inspiração espiritual e de aprofundamento nas exigências da Caminhada. Além disso, o clima de amizade fraterna que a Comunidade pode criar serve como um “alimento afetivo”, a fim de que eu possa perseverar naquele que é um caminho essencialmente solitário.
Mas é possível também se pensar na Comunidade de uma forma mais teleológica. Pensar dessa maneira é buscar os seus propósitos, seus objetivos últimos. Bem, pensando dessa maneira, a Comunidade vai além de um mero meio e, assim, vai ser tornar, com Deus, o centro de nossa vida. Nosso objetivo central é o de ter uma vida comunitária. Aí surgem dois grandes desafios: um deles é aprender a viver um Êxtase Horizontal – saindo de nosso individualismo rumo a uma ‘partilha de vida’, que conhecemos também por koinonia. O outro, é aprender a viver um Êxtase Vertical – que é sair de si mesmo, de sua auto-suficiência, e de seguir rumo a Deus. Resumindo o abraçar desta autêntica Cruz – um traço vertical e outro horizontal – é o duplo “êxodo”: do autocentrismo para uma autotranscendência. Na vida em Comunidade, não dá para se escolher apenas um deles, é preciso optar por ambos!
Esse movimento, também chamado de dúplice movimento, é o sair fora de si rumo á união com o Outro e com os outros. “Amar a Deus sobre todas as coisas; e aos outros, como a si mesmo”. São os dois primeiros mandamentos, que precisam ser vividos a todo instante na vida comunitária. Se o pecado original resultou de duas rupturas de comunhão: Adão e Eva rompem com o Criador pela sua autossuficiência e desobediência; logo a seguir, Caim tira a vida de Abel, seu irmão, em função de sua inveja e ira. Então, estas duas rupturas precisam ser restauradas pela Salvação que envolve duas reconstruções de Comunhão: com Deus e com o irmão. A ruptura veio pelo nosso pecado – a Salvação, pela Virtude de Jesus.
Para que haja a restauração da comunhão entre Deus e o homem, e o homem e o homem - esta dupla restauração – é que veio Jesus ao Mundo. A tarefa de reconciliar o homem com Deus é feita pelo Salvador pelo seu mistério Pascal (sofrimento, morte e ressurreição, mais o envio do Espírito Santo). A tarefa de reconciliar o homem com o homem é feita pelo estabelecimento de Sua Igreja. A Igreja é a “sociedade dos reconciliados” com Deus que são chamados a crescer em unidade cada vez mais profunda e completa uns com os outros.
O catolicismo não é um projeto de uma pessoa por vez, onde cada um é salvo em e para si mesmo – é um projeto social pela qual a Igreja se dedica a atingir toda a unidade da humanidade com Deus e a unidade de toda a espécie humana.
Assim, uma comunidade autêntica precisa demonstrar que é “uma pequena civilização do amor de Deus e do amor ao próximo”. Então, se uma designação da Comunidade é a koinonia, uma outra designação seria ecclesiola – ou seja, uma Comunidade é uma ‘pequena igreja’. Um lugar com diversos dons e carismas. Esta comunidade, que é uma igrejazinha, tem duas obrigações inter-relacionadas com todos os seus participantes – ajudar cada um a crescer em comunhão cada vez maior com Deus e ajudar cada um a crescer em uma comunhão maior com os irmãos. Só dessa maneira uma Comunidade realmente santifica seus membros.
Estamos trabalhando nessa direção, sempre? Isso pode ser bem mais difícil e trabalhoso do que parece. Isso porque embora todos numa Comunidade possam parecer “gente boa”, é exatamente essa busca do crescimento espiritual que pode nos fazer mais resistentes ao ‘êxtase horizontal’, isto é, a deixar nosso ego e nossa preferências para trás em favor do próximo (na verdade, de todos “os próximos, a Comunidade).
Assim, a vida comunitária possui uma ‘ascese’ (subida), um caminho de autotranscendência onde é preciso deixar as suas coisas de lado, em prol do bem comum. Da comum-unidade. Como seres humanos, os membros da Comunidade têm seu jeito de ser, suas preferências, atrações e repulsões. Alguns irmãos lhe são simpáticos; outros, com um pouco mais de convivência, oração e boa vontade, acabam se tornando simpáticos. Com outros, nunca simpatizará... E então, o que fazer? Entretanto, como membro de uma comunidade que é chamado a Amar e louvar a Deus e a amar e servir seu irmão – tanto os simpáticos quanto os antipáticos - e assim construir uma genuína comunidade cristã, somos chamados a esta exigência que nos leva à santidade.
Qual o segredo, então, para se tornar uma Comunidade de verdade? São dois. Primeiro, descobrir gradualmente qual a sua identidade pessoal dentro da comunhão da Comunidade. Porque a idéia não é ‘anular’ a si mesmo, negar-se e autodestruir-se em prol do bem comum. Nada disso! A proposta é viver uma experiência profunda e alegre de si mesmo em esforço para ser, em comunhão com os demais. É aprender, a duras penas, a realidade do ‘nós’. Quando uma Comunidade assume uma tarefa e tenta trabalhar junta isso é verificado. Segundo, o esforço para sair do isolamento em direção à comunhão é mais que um esforço moral – é um esforço místico! Não se trata apenas de superar alguns hábitos egoístas a fim de ser um bom membro da comunidade; trata-se de algo muito maior e mais profundo, um projeto de “trinitarização” onde o homem é a imagem de Deus na sociedade vivendo um ciclo constante de amor, serviço e generosidade. É quando uma Comunidade torna a Santíssima Trindade presente e visível aqui na Terra. Uma antecipação do Reino de Deus.

Sérgio – Comunidade Tenda 6.
Escrito em Setembro de 2015. Inverno.




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